Conexão Itaberá – Parte II – É melhor entreter do que se fazer entender

No dia seguinte já havia os primeiros dados coletados, as primeiras informações e, lógico, as primeiras hipóteses.
Não demorou muito e os mais diversos especialistas começaram a falar sobre rede de transmissão, sobre distúrbios elétricos na atmosfera, sobre o sistema elétrico funcionar interligado, e agir, em casos extremos, num efeito dominó, reduzindo riscos de sobrecarga.
Rápido o governo já emitiu informações sobre condições meteorológicas em vários pontos do Brasil, e já trataram logo de ir cercando a região de São Paulo, onde se inseria uma cidade, até então desconhecida da maioria dos brasileiros.
Aquela altura dos acontecimentos todos os cuidados foram tomadas para blindar quem outrora ocupara a pasta de Minas de Energia, visto que, seu papel, agora, era se projetar no cenário nacional para garantir uma chegada ao posto político mais alto do país. Aliás “blindar” virou a palavra da moda nos últimos tempos .
Foi em meio a esse cenário que um grupo de notáveis (só não sei bem em que área) foi responsabilizando por fornecer a informação oficial. E foi assim que ficaram fitando o mapa de São Paulo, procurando redes de transmissão e nomes de cidade por onde a energia passava.
Nesse grupo figuravam especialistas em marketing, sendo inclusive um deles membro daquele departamento que fornece nomes espetaculares às ações da Polícia Federal, cartógrafos, meteorologistas, assessores para assuntos esotéricos, todos coordenados pelo ministro que já trabalhou em vários canais de mídia, e até tentou transformar Silvio Santos em Presidente do Brasil.
Com as habilidades de operar a mídia, nosso coordenador, e ministro, logo exigiu dos notáveis uma resposta objetiva, incontestável, e tecnicamente sustentável (apesar de não ser uma exigência excludente, já que desse assunto ninguém entende muito, nem ele mesmo).
Ao bater forte sobre a mesa, reafirmando seus propósitos, a xícara de café virou, e o mapa que lá estava foi severamente borrado , com o líquido escorrendo por vias vicinais, que passavam por várias cidades iniciadas por “Ita”: Itapeva, Itaporanga, Itapetininga, Itararé e Itaberá.
Não demorou muito para que o assessor esotérico percebesse que aquilo era um claro sinal, ali estava a resposta. O apagão foi causado por algum fenômeno ocorrido sobre algum lugar, cujo nome iniciava-se por “ ita”.
Todos na sala viram que a solução já estava praticamente encontrada. Houve uma voz discordante no grupo, por sua especialização em meteorologia, mas ele foi prontamente convidado a se retirar daquele recinto. Aliás, alguns dias, depois ele apareceria na TV discordando da posição oficial do governo.
Como figura democrática, que segue os preceitos de um governo que preza pela participação de todos no poder e nas decisões, nosso midiático ministro decidiu que o “ita” definitivo seria escolhido por escrutínio secreto.
O papel A4, para a respectiva votação, foi meticulosamente cortado pela secretária, pois, afinal, aquela não era uma reunião para se fazer ata, e era necessário atribuir alguma função a ela.
Cada qual pode então escrever a cidade que seria a causadora do nefasto apagão. Ainda teve alguém na sala que lembrou ser importante checar se na cidade passava torres de transmissão e se havia chovido. Porém o entusiasmo com a inovadora e incontestável metodologia de solução era tão contagiante que isso ficou para ser pensado depois.
Nossa fonte, que não pode ser revelada, pois também quisemos blindá-la, conseguiu contar os votos. O resultado foi o seguinte:
Itapetininga – 1 voto
Itaperá – 1 voto (alguém não sabia escrever o nome certo da cidade)
Itapeva – 0 voto
Itararé – 1 voto
Itaberá – 2 votos
Carlopólis – 1 voto (bom acho que alguém na sala não prestava a atenção no que estava acontecendo)
Diante do resultado, e considerando que um voto foi escrito de forma incorreta, Itaberá foi declarada a causa do apagão, pela esmagadora vitória obtida por 3 votos (50% dos votos válidos).

Conexão Itaberá – Parte I – E no inicio fez-se o apagão

Além de falar sobre negócios, gestão, educação, gosto também de fazer alguns ensaios para rir um pouco, busca diversão e entreter as pessoas, com humor inteligente e satírico. Afinal nos momentos que estamos vivendo, há fatos que poucos se lembram. A atual “presidenta” já foi ministra das Minas e Energia, na época dos inúmeros apagões. Divirta-se também…

Levava a chave à fechadura, quando, de súbito, a visão não mais encontrava  a roseta, por onde a chave entraria.

Tentando entender o que acontecia, olhei para os lados, para a janela e para um orifício, ainda proeminente, na caixa de ar condicionado, que deixaria a luz passar. Mas ali, assim como na janela, havia sumido.

Desisti de trancar a porta e retornei à rua, para certificar-me se era um problema só do prédio, ou se a extensão da falta de luz estava além daquelas paredes. Por um instante imaginei quantas outras pessoas não fazem a mesma coisa num acontecimento desses. Porém meu imaginário não conseguiria quantificar os milhões de habitantes que naquele momento se perguntavam a mesma coisa.

A cidade era Nova Iguaçu, e não demorou mais que vinte minutos para meu celular tocar – que bom que me lembrei em deixá-lo carregado – e de São Paulo era minha mãe, perguntando se também estava sem luz, imaginando que estivesse em minha casa, em Vila Velha. Ela logo me alertou que estavam dizendo se tratar de um apagão.

Sem perder tempo estendi minha busca, liguei para minha casa, e lá estava, minha mulher dormindo sem nada saber, mas, já que estava perguntando, esticou o braço e ao alcançar o interruptor percebeu que a luz acendia, porém muito mais fraca. Tomado pela minha tendência de querer explicar tudo, já fui logo dizendo que, certamente, havia caído uma fase. Puxa, no dia seguinte descobri que estava correto, e que em boa parte do Espírito Santo não houve uma queda total da energia.

Ainda fiz mais duas  ou três ligações, buscando contatos distantes, lá em Timotéo, em Minas Gerais, e ainda, logo ali do lado, para gente no Rio de Janeiro. Parei, tentando entender por que estava fazendo aquilo, já que nenhum efeito produziria para gerar a redução do caos, que provavelmente já estava se instalando em muitos lugares.

O restante da noite foi uma tentativa de dormir, sem o ar condicionado que me daria as condições de ser bem mais agradável. Lá pela meia noite ainda chega meu sócio de consultoria, pois estávamos hospedados no mesmo alojamento de serviço.

Sem ter o que fazer, já que os jogos de games gratuitos, o Orkut e o MSN não seriam acessíveis, tentamos dormir, e por duas ou três vezes repeti o esforço de acionar o interruptor na busca da luz. Ela não vinha!

No dia seguinte com o serviço restabelecido, me pus logo a buscar o noticiário. Imaginei que esse ato estava sendo imitado em todo lugar.

Nossa… quase o país todo estava sem energia; o presidente convocava uma reunião de emergência (mais marketing que tudo, é lógico); os comentaristas especializados (não sei como essas agências de notícia arrumam especialistas tão rápido) já faziam prognósticos das possíveis causas.

Naturalmente teve um outro grupo mais animado, que logo estendeu o campo de explanações para causas dignas de “Arquivo X”: uma provável emanação maciça de radiação solar pode provocar a formação de um gigantesco campo eletromagnético, que paralisa o sistema elétrico. Puxa, essa convencia qualquer ser humano comum, pois astrofísica é coisa de só de “entendido”.

A cabeça fervilhava. Lembrei que uma ministra, que hoje tá em outro lugar, mas era da tal Minas e Energia, havia apresentado dados convincentes sobre o excedente energético brasileiro, e, também sobre a sofisticada rede de distribuição, que dias depois seria intitulada ”uma das mais modernas do mundo”

Bom, agora só faltava mesmo era a informação oficial, ou seja, alguém bem importante, escolhido pelo seu extenso e irrepreensível currículo poderia explicar, com a chancela governamental o que havia acontecido.